LEONARDO PAZ NEVES
“Não se diz às pessoas o que fazer, mas é importante fazer com que elas continuem sentadas à mesma mesa.” (Provérbio Popular Norueguês)
Há algumas semanas, um dos eventos que mais acalorou os debates foi a vinda do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad ao Brasil.
Por que nosso presidente deveria receber um homem que nega o Holocausto, prega a destruição de uma outra nação, é acusado de violar os direitos humanos em seu país e de fomentar o terrorismo em sua região? De fato, é razoável que ninguém quisesse que seu país estreitasse laços com um mandatário de currículo tão pesado.
Enfim, se ainda me perguntassem se deveríamos recebê-lo, diria que sim. Agora o porquê, já demanda mais algumas linhas para explicar decisão tão polêmica. Antes de qualquer coisa, meu argumento se baseia em que devemos receber todos os mandatários que busquem o Brasil, seja para estreitar laços ou, principalmente, para mediar alguma situação de conflito. A estratégia de isolar e alienar é retrógrada, e está em baixa até nos EUA, pois ela visivelmente dificulta o diálogo e cria constrangimentos para futura reaproximação e acordos.
Ainda, tal postura seria de certo modo incoerente para a maior parte dos que a defendem, pois quando o presidente americano Bush se recusava a receber diversos presidentes, seja qual fosse seu motivo, ele era pesadamente criticado. E agora? Espera-se que Lula faça o mesmo?
Voltando ao presidente iraniano, longe de mim querer justificar seus atos e palavras, dos quais discordo em maior parte. Contudo, para cada uma das acusações feitas a ele, podemos identificar um, ou mais, presidente(s) que sofra(m) acusações semelhantes que não causariam um décimo do rebuliço causado pela vinda do Sr. Ahmadinejad.
O Brasil, ao longo dos anos, adquiriu um capital político precioso. Hoje somos um dos únicos (senão o único) países de relativo peso político internacional que goza de uma credibilidade invejável em sua postura ante aos demais países. Os pilares da nossa política externa, que remontam o Barão do Rio Branco, repousam na não intervenção dos assuntos alheios (soberania), solução de controvérsias por meios pacíficos e no multilateralismo.
Essas características nos deram uma aura de neutralidade que nos permite circular pelos corredores da ONU sem nos preocupar em cruzar com quem quer que seja. Tornamos-nos um mediador legítimo para todos. O próprio Ahmadinejad reconheceu esta qualidade entoando que o Brasil é uma potência desinteressada e que, portanto, tem o direito natural de opinar nas grandes questões.
O ponto, no fim, é mais ou menos o seguinte: podemos contribuir de algum modo. Certamente não será isolando nossos interlocutores. Para atuar como mediadores legítimos e com possibilidades de sucesso, temos que ser aceitos pelos dois lados como um ator dotado de credibilidade e desinteresse. Só assim podemos sentar mesa de negociações e fazer com que todos nos escutem sem reservas.
Apenas assim podemos buscar a mudança na postura de determinados líderes sejam árabes, israelenses ou qualquer outro.