Por que deveríamos receber Ahmadinejad?

29/05/2009 - Leave a Response
LEONARDO PAZ NEVES

“Não se diz às pessoas o que fazer, mas é importante fazer com que elas continuem sentadas à mesma mesa.” (Provérbio Popular Norueguês)

Há algumas semanas, um dos eventos que mais acalorou os debates foi a vinda do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad ao Brasil.

Por que nosso presidente deveria receber um homem que nega o Holocausto, prega a destruição de uma outra nação, é acusado de violar os direitos humanos em seu país e de fomentar o terrorismo em sua região? De fato, é razoável que ninguém quisesse que seu país estreitasse laços com um mandatário de currículo tão pesado.

Enfim, se ainda me perguntassem se deveríamos recebê-lo, diria que sim. Agora o porquê, já demanda mais algumas linhas para explicar decisão tão polêmica. Antes de qualquer coisa, meu argumento se baseia em que devemos receber todos os mandatários que busquem o Brasil, seja para estreitar laços ou, principalmente, para mediar alguma situação de conflito. A estratégia de isolar e alienar é retrógrada, e está em baixa até nos EUA, pois ela visivelmente dificulta o diálogo e cria constrangimentos para futura reaproximação e acordos.

Ainda, tal postura seria de certo modo incoerente para a maior parte dos que a defendem, pois quando o presidente americano Bush se recusava a receber diversos presidentes, seja qual fosse seu motivo, ele era pesadamente criticado. E agora? Espera-se que Lula faça o mesmo?

Voltando ao presidente iraniano, longe de mim querer justificar seus atos e palavras, dos quais discordo em maior parte. Contudo, para cada uma das acusações feitas a ele, podemos identificar um, ou mais, presidente(s) que sofra(m) acusações semelhantes que não causariam um décimo do rebuliço causado pela vinda do Sr. Ahmadinejad.

O Brasil, ao longo dos anos, adquiriu um capital político precioso. Hoje somos um dos únicos (senão o único) países de relativo peso político internacional que goza de uma credibilidade invejável em sua postura ante aos demais países. Os pilares da nossa política externa, que remontam o Barão do Rio Branco, repousam na não intervenção dos assuntos alheios (soberania), solução de controvérsias por meios pacíficos e no multilateralismo.

Essas características nos deram uma aura de neutralidade que nos permite circular pelos corredores da ONU sem nos preocupar em cruzar com quem quer que seja. Tornamos-nos um mediador legítimo para todos. O próprio Ahmadinejad reconheceu esta qualidade entoando que o Brasil é uma potência desinteressada e que, portanto, tem o direito natural de opinar nas grandes questões.

O ponto, no fim, é mais ou menos o seguinte: podemos contribuir de algum modo. Certamente não será isolando nossos interlocutores. Para atuar como mediadores legítimos e com possibilidades de sucesso, temos que ser aceitos pelos dois lados como um ator dotado de credibilidade e desinteresse. Só assim podemos sentar mesa de negociações e fazer com que todos nos escutem sem reservas.

Apenas assim podemos buscar a mudança na postura de determinados líderes sejam árabes, israelenses ou qualquer outro.

LEONARDO PAZ NEVES é Cientista Político e professor do IBMEC-RJ

Lula: o canalha no. 1 da nação

06/05/2009 - 3 Respostas
GUSTAVO LEAL

Correndo um sério risco de estar falando o óbvio ou chovendo no molhado, resolvi fazer um acréscimo na teoria sobre a popularidade do Lula.

Mesmo nas situações em que lhe é exigida uma postura de “servidor público no.1″, o Presidente Lula desanda a falar como se  fosse, simplesmente, o cidadão Lula. Não, não estou repetindo aquela idéia batida de que ele “fala o que o povão quer ouvir”… não é isso. É  bem mais.

Em momentos em que o Presidente da República deveria aparecer como referência de bom senso e comportamento, ele resolve se portar como um cidadão normal médio, daqueles que falam segundo o “senso comum”. Tal expediente, além de angariar simpatia, faz a gente, no mínimo, pensar: “É, eu também pensaria ou faria assim”. Quando você se dá conta disso, é tarde. Ficou difícil criticar.

Vide o caso da farra das passagens aéreas dos deputados e senadores: viram qual foi a reação dele? “Eu também fazia isso quando era deputado. Qual o crime? Que mal há em usar sua cota para trazer as esposas ou lideranças sindicais para Brasília?” Ou seja, o cidadão Lula, falando com a autoridade do Presidente Lula, dá salvo-conduto aos congressistas para continuar a confundir o público com privado. Além de emprestar tal solidariedade oficial aos colegas, ele fala exatamente como uma pessoa comum falaria. Fica no ar uma sensação de “atire a primeira pedra quem nunca pensou em fazer isso se fosse político”. Quantos de nós nunca pensou “se eu morasse em Brasília também traria minha família toda semana pra cá. O congresso tá pagando mesmo…”?

Resumindo, Lula é o homem-comum-médio brasileiro. Não é só o povão que se identifica com ele. Todos nós, brasileiros-médios, também – e isso nos irrita profundamente! Mais: ele sabe disso, e diz o que diz na hora certa.

Como eu sempre digo: o maior mal perpetrado por esse governo é, mais que a corrupção, a banalização da falta de vergonha, a vulgarização da canalhice político-cultural-ideológica e a oficialização da promiscuidade que existe entre o público e o privado.

E o patrocinador desse quadro é o Presidente da República. Isso sim, é falta de decoro!

GUSTAVO LEAL é publicitário e professor universitário.